jeudi 16 février 2012

Nacional: A Dama do Cine Shanghai (Guilherme de Almeida Prado/1987)


O final dos 80` e começo dos 90` foram especialmente trágicos para o cinema nacional, muitos creditam a quase anulação total da nossa cinematografia ao então presidente eleito Fernando Collor. Além de congelar as pobres poupanças do povo, tomou como um dos seus primeiros atos o fechamento da Embrafilme, então produtora estatal de cinema no Brasil. Claro que sendo bancada pelo governo, mas que de uma maneira ou de outra, mesmo que durante um bocado de tempo tendo sido por vezes podada ou podando, a Embrafilme mantinha uma produção constante de filmes, a sua maioria dependia exclusivamente dela para ver as salas de cinema. Em um dos seus últimos momentos, a Embrafilme veio a produzir A Dama do Cine Shanghai, dirigido e roteirizado por Guilherme de Almeida Prado. Uma realização que tenciona a emular o cinema noir, mesclando ao gênero as tendências marginais bem particulares da nossa “brasileirisse”, flertando assim com os tipos de filmes que eram produzidos nos anos 60, 70 e 80 pela produtora maldita conhecida como Boca do Lixo.

A Dama do Cine Shanghai não é um filme ruim, mas passa longe de ser algo realmente notável na filmografia brasileira, não por querer trazer um tipo de produção pouco adaptada aos nossos moldes, mas sim por ser irregular, tendo sérios problemas de ritmo e transformando uma historia que até seus 40 minutos era bem interessante em algo confuso e pouco emocionante. Na trama, Lucas (Antônio Fagundes) é um corretor de imóvel que durante uma sessão de cinema numa sala das mais vagabundas conhece a bela, misteriosa e sedutora Suzana (Maitê Proença). No dia seguinte ao primeiro encontro, em uma apresentação de um decadente apartamento a clientes, se depara novamente com a mesma Suzana e seu marido rico. Evidente que logo acontece uma forte atração entre os dois, fazendo assim o homem entrar em uma espiral de acontecimentos que culmina na acusação de que ele tenha assassinado um marinheiro numa transação de drogas.

Impressionante que todo o inicial clima intrínseco e enigmático da historia é perdido em sua segunda metade, parecendo que Prado se preocupou mais em confundir o espectador ou criar um tipo de reviravolta tresloucada para o seu desfecho surpresa. Talvez tenha até surpreendido realmente quem assistiu ao filme em seu lançamento, mas não dá para dizer que isso o torne mais emocionante, apenas atesta o quanto ele vai declinando ao decorrer de sua apreciação. Por outro lado, deve – se louvar a muito bem feita caracterização dos personagens (mesmo que caricatos), em certo momento, Fagundes consegue nos fazer lembra do lendário Humprey Bogart. O trabalho de direção de arte também é bem relevante. Vemos o uso das sombras com propriedade, com cenas cometidas dentro de elevadores pantográficos claustrofóbicos, prédios mal cuidados, escritórios e apartamentos devassados, trazendo ainda letreiros em néon que refletem suas luzes melancólicas dentro dos imóveis. Assim remetendo e venerando cada vez mais o gênero noir. Um outro detalhe interessante são as seqüências que homenageiam Janela Indiscreta de Hitchcock, quando Lucas resolve alugar uma sala em frente ao apartamento aonde Suzana mora e assim poder espiá-la melhor.

A obra de Prado pode ser vista como uma realização atípica, verdade seja dita, estranhamente disfuncional para a época, mas diferente de muitos filmes atuais, tem uma linguagem cinematográfica bem especifica. Ao apreciá-la percebemos que estamos diante de cinema, não de um derivado televisivo. Ainda ousada, como todo filme nacional deveria ser, e contando com atores que parecem dispostos a entregar atuações boas, vide os compromissados coadjuvantes de luxo (José Lewgoy, Miguel Falabella, John Doo, Matilde Mastrangi, José Mayer, Jorge Dória, Sérgio Mamberti). A Dama do Cine Shanghai é um filme torto, isso também é fato, justifica talvez o porquê de ser pouco lembrada, mas mesmo assim vale uma conferida, principalmente para constatarmos como as nossas antigas produções poderiam pecar pelo excesso de destemor e não pela falta dele. 



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