mercredi 4 janvier 2012

Autoral: Gosto de Sangue (Blood Simple/Joel e Ethan Coen/1984)

No cada vez mais distante ano de 1984, uma dupla de irmãos que tinham apenas em seus currículos trabalhos de assistentes de edição em filmes de baixo orçamento como A Morte do Demônio de Sam Raimi fez seu début na direção cinematográfica com uma obra de cunho independente intitulada Gosto de Sangue. A dupla em questão atendia pelos nomes de Joel Coen e Ethan Coen, hoje popularmente conhecidos como os Irmãos Coen, que durante o trabalho na produção de Raimi escreveram esse roteiro, que foi bem recebido pelos executivos, mas que muitos insistiam que fosse dirigido por algum diretor mais conhecido ou competente. Após se digladiarem com os estúdios, os próprios conseguiram assumir a batuta, mesmo que com um orçamento bem parco.

A primeira versão de Gosto de Sangue é quase uma relíquia, porque a alguns anos atrás os Coen reeditaram boa parte do filme, incluindo algumas canções na trilha sonora que era nula no original e cortando cerca de 5 minutos do filme. Os próprios alegaram que isso daria mais dinâmica a trama e assim a copia de maior acessibilidade para conferir a estréia dos Irmãos Coen vem com o subtítulo de “versão do diretor”. Claro que em 1984 o próprio cinema tinha outra dinâmica, os nichos não eram tão massificados e uma realização diferenciada como essa poderia ser apreciada por boa parte do público, que muitas vezes eram pegos de surpresa por bons filmes não comerciais. Tanto que Gosto de Sangue em seu ano de lançamento foi aclamado por critica e público, culminando com o prêmio de melhor filme do júri no Sundance Film Festival de 1985, um festival que até então era bem levado a serio e ainda veio a revelar muita gente boa.

Revendo Gosto de Sangue percebe-se que essa lapidada que os Coen deram ao filme foi bem vinda, mesmo para quem não assistiu a primeira versão. Porque se mesmo com uma trilha sonora interessante, que marca bem as nuances intrigantes e um corte de cenas para deixar a trama mais fluida o filme ainda parece um tanto lento, imaginem como ficou antes de ser mexido? Claro que comparado com a maravilhosa filmografia desses competentes, talentosos e oscarizados diretores essa obra em questão não figuraria em um Top 5, mas por outro lado é mais do que válido apreciar um estilo autoral (mesmo que seminal) de cinema se formando. O trato que os Coen dão ao roteiro é refinado, imbuindo uma historia até simples, em que um marido resolve se vingar da esposa adultera e do amante, de certo charme noir, mesclando suspense, violência explicita (e chocante para época), o conhecido humor negro da dupla e personagens exóticos, ainda que contidos. Com destaque para o detetive particular vivido de maneira visceral pelo excelente ator M. Emmet Walsh.

Hoje em dia os Irmãos Coen não precisam provar mais nada, o seu tipo de cinema é bem aceito pelos críticos e cinéfilos, ainda que boa parte do público comercial torça o nariz para seus personagens e histórias “estranhas”. Gosto de Sangue trás ainda um elenco bem sintonizado, com boas atuações da trinca protagonista formada por Dan Hedaya, John Getz e Frances McDormand, aqui mostrando um sex-appeal raro, e que nas filmagens conheceu Joel Coen com quem é casada até hoje. Se Gosto de Sangue não chega a ser uma obra-prima, deve ser reverenciado como uma realização histórica e  marcante, recheada de ousadia e que mostrou ao mundo do que esses irmãos poderiam ser capazes.


Aucun commentaire:

Enregistrer un commentaire